...,

não sei se você notou
talvez não faça falta
mas você deixou seu silêncio cá em casa outro dia

logo que percebi
liguei, mas você não atendeu

mandei um email
escrevi um bilhete e preguei na sua porta
deixei um recado com seu colega de trabalho

tudo inútil
já se passam meses
em que eu insisto, e você
nada

já até pensei que
de repente
você deixou seu silêncio aqui de propósito
ou de presente

na ocasião ele ainda era pequeno
manso
dócil
e faminto

pensei também em ficar com ele
jogar uma bola
passear nas praças aos domingos

mas seu silêncio cresceu rápido
ficou forte
ficou bravo

o seu silêncio come o tempo todo
e já tomou todo o espaço do meu quarto

eu durmo agora no sofá com a tv ligada
e mantenho preso seu silêncio indomável

outro dia fui ver como ele estava
oferecer uma água
um biscoito
um acordo

seu silêncio mordeu meu rosto

por isso escrevo agora
esta desesperada carta
para pedir, por favor,
venha buscar o seu silêncio

levo-o daqui
fique com ele
ou abandone-o numa esquina

(já até posso imaginar seu silêncio feliz
solto pelas ruas
atancando os passantes
fazendo chorar as meninas).


 

o segredo de emília

por último
a boneca de pano disse:
sinto muito

e cuspiu para sempre
a pílula falante

costurou a boca

guardou o sentido
do silêncio
numa caixa
preta feito um túmulo

e enterrou no chão
para não causar tumulto


 

ver ou não ver

eis a questão:
é sempre o verbo
do início
ao fim

(o que os olhos não vêem
o coração ressente)

escrever: verdade
em linhas-rotas

(deus está entre os nós)


 

lei


pode
pecar
o que
quiser

é tudo
céu


null




 

rio-acre

null



(abro a janela
e dou de cara
com uma arara)

o que veio fazer na minha janela, arara?

o que sua janela veio fazer na minha selva, aurélia?

nada
nada


 

quem (re)para?

(n)ave
palavra

porta
viagem
porto

(silencioso vôo)

eu sou
o que sôo


 
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